Marcos Abranches

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Olhar para a deficiência e olhar para a arte, ou juntas, a arte pelo deficiente, não está no simples olhar de ver. Está na grandeza, sem limites, do respeito e da alma das pessoas.
Olhar para a deficiência e olhar para a arte, ou juntas, a arte pelo deficiente, não está no simples olhar de ver. Está na grandeza, sem limites, do respeito e da alma das pessoas.
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Em filosofia discute-se a questão do sistema autopoiético (compreender os sistemas vivos e por decorrência os sistemas de sentido). São os sistemas de sentido que abrangem os sistemas psíquicos, os sistemas comunicativos, enquanto sistemas sociais e suas realidades, cujo centro de interesse é a capacidade interpretativa do ser vivo, que concebe o homem não como um agente que “descobre” o mundo, mas que o constitui.
Em filosofia discute-se a questão do sistema autopoiético (compreender os sistemas vivos e por decorrência os sistemas de sentido). São os sistemas de sentido que abrangem os sistemas psíquicos, os sistemas comunicativos, enquanto sistemas sociais e suas realidades, cujo centro de interesse é a capacidade interpretativa do ser vivo, que concebe o homem não como um agente que “descobre” o mundo, mas que o constitui.
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Entre frustrações e conquistas, nesse sentido, venho, há mais de 10 anos, desde meu primeiro trabalho em Senhor dos Anjos baseado na vida e obra do escritor Augusto dos Anjos, até o meu mais recente trabalho Corpo sobre Tela adaptada das obras do pintor modernista Francis Bacon, procurando fazer da minha dança um chamamento para a reflexão sobre o modo de agir, pensar e opinar das pessoas. Honestidade e integridade não são somente padrões que os outros enxergam em nós. Danço para que as pessoas possam interiorizar os seus verdadeiros valores de equivalência.
Entre frustrações e conquistas, nesse sentido, venho, há mais de 10 anos, desde meu primeiro trabalho em Senhor dos Anjos baseado na vida e obra do escritor Augusto dos Anjos, até o meu mais recente trabalho Corpo sobre Tela adaptada das obras do pintor modernista Francis Bacon, procurando fazer da minha dança um chamamento para a reflexão sobre o modo de agir, pensar e opinar das pessoas. Honestidade e integridade não são somente padrões que os outros enxergam em nós. Danço para que as pessoas possam interiorizar os seus verdadeiros valores de equivalência.

Edição atual tal como 20h59min de 19 de outubro de 2013

Professor de dança, dançarino e coreógrafo da Cia. Vidança, de São Paulo, fundada por ele em 2005. Marcos Abranches tem paralisia cerebral por ter nascido prematuro, aos 6 meses e 20 dias.

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Tabela de conteúdo

Perfil

Marcos Abranches tem 36 anos e, por conta de problemas decorrentes da paralisia cerebral, só se sentiu seguro para andar na rua sozinho aos 16. Mas sempre teve entre seus passeios favoritos a ida a teatros para assistir a espetáculos de dança.

Sua estreia aconteceu em 2003, depois de conhecer o coreógrafo Sandro Borelli e fazer um teste para o espetáculo "Senhor dos Anjos". Integrando a CIA FAR 15, atuou ainda nos espetáculos Jardim de Tântalo e Metamorfose de Franz Kafka, todos coreografados e dirigidos por Sandro Borelli e Sônia Soares.

O bailarino trabalhou também com os coreógrafos Marta Soares, Marcelo Bucoff, Jorge Garcia e com o americano Alito Alessi, um dos fundadores do Dance Ability, escola de movimento que integra, em cena, pessoas com e sem deficiência.

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Incentivado por Phillipe Gemet, desenvolveu um trabalho coreográfico com mais duas bailarinas e fundou o Grupo Vidança, apresentando a peça Desequilíbrio, que posteriormente transformou-se em um espetáculo solo, com mais de, até hoje, 150 espetáculos. Entrevistado pela Folha de S. Paulo, Marcos Abranches declarou:

Nossa sociedade, por falta de conhecimento, trata o deficiente como um coitado. Se eu fosse me basear nesse tipo
de pensamento, não colocaria meus pés para fora de casa. No meu espaço, não há sofrimento. (…) Tenho orgulho 
da minha deficiência, mas não uso isso em primeiro lugar na minha dança. Eu me entrego totalmente, mas antes de
qualquer coisa vem meu coração e meu aprendizado.

Marcos participou do Kulturdifferenztans, em Colônia (Alemanha), e Crossings Dance Festival, em Düsseldorf (Alemanha), apresentando "Via sem Regra", sob direção de Gerda König. Atuou na peça “Trem Fantasma”, em uma adaptação, no Brasil, da obra “Navio Fantasma”, de Wagner, dirigido por Christoph Schligensielf, rendendo-lhe o convite para atuar na temporada de 2008, reeditada em outubro de 2010 e em 2012, na ópera teatralizada da Vida e Obra de Joana D’Arc, no Deutsche Open Berlin, dirigida por Christoph Schligensielf (in memoriam), um dos mais respeitados diretores de toda Europa.

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Corpo sobre Tela. Foto:Eduardo Krapp

Seus mais recentes trabalhos são “Forma de Ver, com a participação da dançarina Ale Bono Vox e sob a direção de Rogério Ortiz, e “Corpo sobre Tela”, criado em parceria com Rogério Ortiz baseada na obra de Francis Bacon e dirigido pelo próprio dançarino. Em “Corpo sobre Tela”, o bailarino combina movimentos voluntários e involuntários ao seu trabalho de intérprete. O corpo do artista vira uma espécie de pincel com o qual ele pinta um quadro durante o espetáculo.

Coreografias

Depoimento

Veja o depoimento completo do bailarino Marcos Abranches durante o Seminário Unlimited: Arte sem Limites, que aconteceu em São Paulo, em 8 de agosto de 2013.

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Quando vou a um restaurante e, despreparado, esqueci minha colher apropriada, tenho que improvisar uma, fazendo com que a inclinação entre a concha e a haste seja maior para que eu possa pegar a comida. Situações hilárias aconteceram e acontecem comigo. Já tomei bronca de garçons e donos de restaurantes, já tive que pagar pela colher quebrada, já tive ajuda de pessoas que, em solidariedade, ajudaram a entortar, a ponto de aplicarem força demasiada e quebrarem a colher. Já saí com meia dúzia de colher quebrada no bolso, sem o garçom entender porque eu pedia tanta colher e eu não podia explicar a ele que a liga de aço da colher era muito fraca. Enfim, se me convidarem para comer em suas casas, cuidado, sou o maior “entortador” de colher do planeta. Espero que os garçons do almoço, que vai acontecer daqui a pouco, não estejam me escutando.

Mas, momentos da minha vida me chamaram a atenção e me levaram a reflexão.

Estive por cinco vezes me apresentando na Alemanha como dançarino. Três vezes em Berlim. É certo que ia a restaurantes. Por questões de prática e tempo, costumava, sempre que possível, repetir o mesmo restaurante, próximo ao Deutsche Open Berlin, onde me apresentava. E vejam. Sem nunca solicitar nada, e nem a mando de ninguém, e nem mesmo saberem o que eu fazia naquele País, quando me sentava à mesa de um restaurante, olhava para os talheres e lá estava a minha colher entortada, sobre um guardanapo de pano, reluzente, exatamente igualzinha a que havia deixado no primeiro dia que lá estive. Ah!, o garfo também estava entortado (pois não sabiam se gostaria de usá-lo ou não), o canudinho no copo e a comida servida já cortada, dada minha dificuldade nos movimentos de pinça. Tudo isso agraciado com um: - Guth Nate Tanzer .

Foram além, já sabiam que eu era um dançarino e, pasmem não se espantaram em nada com isso. No Brasil, ao ser abordado, quase fui preso por um policial achar que estava ironizando quando falei qual era a minha profissão: - Tá me tirando cara, conta outra.

Reflexões.

Olhar para a deficiência e olhar para a arte, ou juntas, a arte pelo deficiente, não está no simples olhar de ver. Está na grandeza, sem limites, do respeito e da alma das pessoas.

Em filosofia discute-se a questão do sistema autopoiético (compreender os sistemas vivos e por decorrência os sistemas de sentido). São os sistemas de sentido que abrangem os sistemas psíquicos, os sistemas comunicativos, enquanto sistemas sociais e suas realidades, cujo centro de interesse é a capacidade interpretativa do ser vivo, que concebe o homem não como um agente que “descobre” o mundo, mas que o constitui.

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Entre frustrações e conquistas, nesse sentido, venho, há mais de 10 anos, desde meu primeiro trabalho em Senhor dos Anjos baseado na vida e obra do escritor Augusto dos Anjos, até o meu mais recente trabalho Corpo sobre Tela adaptada das obras do pintor modernista Francis Bacon, procurando fazer da minha dança um chamamento para a reflexão sobre o modo de agir, pensar e opinar das pessoas. Honestidade e integridade não são somente padrões que os outros enxergam em nós. Danço para que as pessoas possam interiorizar os seus verdadeiros valores de equivalência.

Se estiverem vazias, por Deus, que a Arte e a Cultura as alimentem.

Algumas pessoas podem pensar: Se somos o sopro de Deus, quem nasce com deformações físicas ou mentais são frutos de um sopro defeituoso?

A resposta para este tipo de desigualdade é que não há sofrimento ao redor de nossos passos. O mal supostamente forjado não está naqueles que o carregam, mas naqueles que padecem da aflição de sua própria ansiedade, respeitável, mas inútil, projetando e mentalizando ocorrências menos felizes para a vida dos portadores de deficiência, que, em muitos casos, não são vistos como se supõe e, por vezes, nem chegarão a vê-los assim.

Em meu mais recente trabalho, Corpo sobre Tela, uma das nossas propostas (aqui incluo meu diretor Rogério Ortiz) é imaginar a imagem refletida na alma das pessoas através dos movimentos coréicos voluntários involuntários, implicam o figurativo ilustrativo do objeto. Na narrativa, a crônica informal das formas sensitivas de nos ver e de ver os fatos, denunciando os padrões anestesiados das sensações, vitimados pela pobreza da alma imperfeita que limitam a subjetividade do ver. Mas esta é a minha missão. Quando Deus colocou a dança em minha vida, não me perguntou se eu a queria ou não. Simplesmente a colocou. Deus não pergunta. Mas de uma coisa estou certo, ele me fez dançarino, para que, entre tantos outros, rogue ao mundo que reflita sobre a ausência do igual.

Tenham a certeza, para os deficientes, as mostras de arte e cultura são inesgotáveis. Sem limites ou fronteiras. Não se surpreendam do que somos capazes.

Todos sabem o quanto se produz arte e cultura nos meios deficientes, o que precisamos é extravasar nossa demanda. Para tanto precisamos que o universo sistematizado que nos rodeia as compreendam e criem mecanismos políticos de condução. Se desejarem ter provas da falta de compreensão do sistema político para com nossas causas, entrem com um projeto de arte de deficientes buscando benefícios em uma Lei Rouanet, Incentivos e Seguridade Social e presenciem a vontade política da inclusão. Apesar das mudanças em curso, o poder público ainda observa a deficiência como uma característica do indivíduo que possui um corpo com uma disfunção ou imperfeição. Sendo assim, o corpo torna-se o instrumento da inclusão social, agora não pela sua beleza ou pela sua habilidade extraordinária, mas em função do seu defeito e da sua inabilidade.

Mas não podemos generalizar.

Iniciativas como a desse Seminário dão prova que existem instituições, governamentais e privadas, com alta compreensão do nosso trabalho, e assim encerro com meus agradecimentos aos realizadores desse evento.

Agradeço a Secretaria da Cultura do Estado de São Paulo, ao MAM, a SP Escola de Teatro – Centro de Formação das Artes do Palco, a British Council, ao Sesc, a Associação Paulista dos Amigos da Arte, aos colegas palestrantes e a todas as pessoas que colaboraram para a realização desse importante Seminário, na certeza de que demos mais um passo para o engrandecimento e condução da arte e cultura de todos nós artistas deficientes.

Parabéns por esse trabalho.

Meu muito obrigado.

Referências

Veja depoimento: http://transform.britishcouncil.org.br/pt-br/content/depoimento-do-dancarino-marcos-abranches-no-seminario-arte-sem-limites

Folha de S. Paulo

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